Jornada de memória, luto e afirmação da esperança
22-23-24 de outubro de 2021

Homenagem às vítimas da pandemia da covid-19
Com o Alto Patrocínio de Sua Excelência O Presidente da República

O vírus da pandemia que assolou o mundo em 2020-21 está a ser combatido com eficácia pelas medidas sanitárias e pelas vacinas conseguidas em tempo record. O rasto deixado é de desolação: o número dos diretamente afetados caminha para os 180 milhões e, desses, perto de quatro milhões perderam a vida. Estamos perante uma tragédia de proporções avassaladoras.

Ainda que sejam grandes os desafios que as nossas sociedades têm pela frente, em particular na saúde e na economia, a amplitude da tragédia parece ter-se atenuado nos países do mundo ocidental que controlam a produção e o acesso às vacinas. Mas os entraves à libertação das patentes e a falta de solidariedade internacional fazem com que uma grande parte da humanidade, sobretudo dos países do hemisfério sul, continue a sofrer e a morrer de forma dramática com a covid-19.

Mesmo nos países ditos desenvolvidos a situação de algum controlo dos aspetos sanitários mais gravosos da pandemia, a que estamos a chegar, pode considerar-se precária, porque é sistémica: só estaremos seguros contra a covid-19 quando, a nível do planeta, todos estiverem seguros.

Ao olhar para a fase pós-pandemia na realidade que nos é mais próxima, não podemos esquecer, não podemos fazer tábua-rasa, da experiência traumática que o último ano representou para centenas de milhares de portugueses que viveram e vivem momentos trágicos.

Não podemos nem queremos esquecer as perto de 900 mil pessoas contagiadas, muitas das quais passaram por situações desesperadas de que estão ainda a recuperar física e psiquicamente.

Não podemos nem queremos esquecer as mais de 17 mil vítimas mortais. Grande parte sofreu sozinha, morreu longe dos seus e sem possibilidade de um último adeus. Não podemos esquecer os seus familiares e amigos, sobretudo os que não puderam acompanhar e despedir-se dos doentes hospitalizados ou institucionalizados, e de todos aqueles que nem sequer puderam fazer-lhes o funeral.

Não queremos nem podemos esquecer as várias categorias de profissionais que trabalharam até ao esgotamento nas linhas da frente, bem como outros profissionais que, em outras frentes, permitiram que o país funcionasse.

Não podemos nem queremos esquecer a memória dos que partiram e a dor vivida pelos que ficaram, mais a de todos os familiares e amigos que também sofreram com a dor dos outros.

Não podemos esquecer aqueles que, em Portugal e um pouco por todo o mundo, morreram não devido à covid-19, mas à fragilidade dos serviços de saúde que deixaram de poder atender a outras doenças graves.

Não podemos esquecer a pandemia da solidão, que atingiu todos, mas, particularmente, os muitos idosos, que perderam a vida ou a lucidez, fazendo-nos ver que a vida dos mais velhos não é menos preciosa do que a dos mais novos.

Fazer o luto é imprescindível. São atos pessoais e sociais que ajudam a despedir-se de quem parte, proporcionando o reconhecimento da vida que viveram. Ajudam também a curar as feridas e a seguir em frente. As circunstâncias da pandemia e as restrições de movimentos a que ela obrigou não deixaram, em muitíssimos casos, que se iniciasse o processo de luto.

Fazer o luto comunitário é imprescindível. Numa pandemia, há uma dimensão coletiva e comunitária do luto que não resulta apenas do somatório dos lutos individuais ou familiares. Há um luto comunitário que precisa de ser feito, porque a tragédia que eclodiu e o trauma que ela originou são sociais e globais.

Afirmar a esperança é igualmente necessário. Esperança no reforço de relações sociais fraternas, justas e portadoras de futuro para todas e todos, conscientes do risco que existe de regresso ao velho normal. Esperança por estarmos mais preparados para enfrentarmos juntos os desafios da pós-pandemia e outros que se nos coloquem. Esperança fundada nos atos de solidariedade, dedicação e atenção de que fomos atores e testemunhas ao longo deste longo ‘inverno’.

Afirmar a esperança será também não desistir de pensar um outro mundo, de questionar o modelo de sociedade centrado no ter e não no ser. Reconhecer que somos todos vulneráveis e interdependentes, que estamos todos no mesmo barco e que reconhecê-lo pode ajudar a superar o medo.

Em memória do que cada um viveu, para sublinhar o luto coletivo, afirmar a esperança que nos move e homenagear as vítimas da pandemia, um grupo de cidadãos, constituído em Comissão Promotora, entende ser necessário e oportuno propor a organização de uma iniciativa cívica, de âmbito simultaneamente nacional e local, que vá ao encontro das preocupações aqui enunciadas.

Jornada Nacional
Memória & Esperança 2021

1. A jornada visa mobilizar a sociedade portuguesa e suscitar a participação de todas as pessoas e instituições que o desejarem.

2. A jornada visa dar densidade, rosto, vida e sentido coletivo aos números, estatísticas e gráficos com que todos fomos confrontados desde março de 2020.

3. De modo especial, a jornada propõe-se prestar tributo aos que partiram, acolher o sofrimento e as narrativas dos que foram afetados pela pandemia e suas consequências e celebrar e agradecer a todos os que cuidaram da saúde e minoraram o sofrimento e a dor de tantos. Será também uma iniciativa para afirmar a vontade de viver em comunidades que não querem deixar ninguém para trás.

4. A jornada ocorrerá no fim-de-semana de 22-23-24 de outubro de 2021 em um ou mais destes dias, podendo extravasar para dias anteriores ou posteriores.

5. A jornada poderá ter uma cerimónia nacional, em moldes a definir, e terá múltiplas iniciativas locais ou setoriais, de carácter livre, articuladas num programa local, se possível.

6. Procurar-se-á dar corpo a tudo o que a pandemia nos deixa na memória, recorrendo a todas as linguagens expressivas, que não apenas, nem sobretudo, o discurso falado.

7. Num dos dias da Jornada, a definir, procurar-se-á que os sinos das igrejas toquem ao meio-dia e as famílias serão convidadas a colocar, à noite, uma vela num espaço público coletivo ou na janela das suas casas.

8. As instituições religiosas, atendendo à proximidade com as respetivas comunidades e aos rituais próprios que têm para lidar com o sofrimento e a morte, são convidadas a tomar as iniciativas que entendam mais adequadas, próprias e/ou em articulação com outras confissões e outras instituições da sociedade.

9. Do mesmo modo, os órgãos do poder autárquico municipal e de freguesia são convidados a assumir protagonismo, quer na promoção de iniciativas quer na articulação e coordenação de ações no plano local quer na sensibilização das instituições e das comunidades locais.

10. As escolas e, em geral, as instituições educativas são chamadas a organizar projetos que valorizem a expressão das crianças e dos adolescentes relativamente às vivências e aprendizagens que fizeram com a pandemia, num exercício que permita abordar um processo que foi traumático e que afetou de modo particular os mais novos.

11. As instituições de saúde, de ação/intervenção social e de proteção civil, pelo papel que têm tido no combate à pandemia, terão certamente um lugar de destaque em iniciativas nacionais e locais, através de iniciativas próprias ou de outras entidades.

12. As instituições e os atores culturais, tão fortemente penalizados pela pandemia, saberão incluir na sua programação e na sua criação propostas específicas de interpretação artística e de expressão de sentido e significados sobre estes tempos de pandemia e o desenho de um futuro não assente em tentadoras distopias.

13. Os meios de comunicação social são convidados a tomar as iniciativas que entendam oportunas para informar e mobilizar a comunidade, tomando as iniciativas editoriais e de programação que entendam mais adequadas.

14. As iniciativas deverão ter um carácter aberto, plural e inclusivo, podendo assumir formas como celebrações cívicas, celebrações religiosas/ ecuménicas, concentrações, desfiles, vigílias, tempos (minuto) de silêncio, cordões humanos, instalações artísticas, sessões musicais ou performativas (dança, poesia, teatro, murais…).

15. Será criado o site memoriaeesperanca.pt onde poderão ser anunciadas e registadas todas as iniciativas. Esse site terá também um papel pedagógico, recebendo e propondo ideias sobre o que se pode fazer localmente.

30 de junho de 2021

A Comissão Promotora

Adel Sidarus
Adelino Gomes
Adriano Miranda
Alexandre Abrantes Neves
Alfredo Abreu
Alice Vieira
Álvaro Laborinho Lúcio
Ana Madureira
António Calaím
António Cardoso Ferreira
António Marujo
António Silva Graça
Bruno Nogueira
Catarina Castel Branco
Catarina Pereira
Cátia Tuna
Cho Ian Lei
Cristina Sampaio
Daniel Sampaio
Debora Hossi
Deolinda Machado
Eduardo Jorge Madureira
Estela Gameiro
Esther Mucznik
Eugénio da Fonseca
Evelina Ungureanu
Fátima Almeida
Fernando Alves
Fernando Lapa
Filipa Reis
Francisco José Viegas
Fernando Ventura
Ghalia Taki

Gonçalo Reis
Helena Araújo
Helena Genésio
Helena Valentim
Inês Espada Vieira
Isaac Assor
Isabel Capeloa Gil
Isabel do Carmo
Joana Belbute
Joana Marques
Joana Rigato
João Madureira
João Pedro Chantre
João Ramos de Almeida
Joaquim Azevedo
Jorge Bateira
Jorge Pina Cabral
Jorge Wemans
José Carlos Mota
José Centeio
José Mattoso
José Vera Jardim
Júlio Martín Fonseca
Khalid Jamal
Leonor Xavier
Lídia Jorge
Liliana Caridade
Luís Mah
Luís Soares Barbosa
Luísa Alvim
Luísa Schmidt
Madalena Victorino
Mahomed Iqbal
Manuel Brandão Alves

Manuel Pinto
Margarida Mano
Margarida Valença
Maria Eduarda Ribeiro
Maria João Avillez
Maria João Nogueira
Maria José Água Mel
Maria Rueff
Miguel Poiares Maduro
Mónica Freitas
Nicolau Fernandes
Paula Moura Pinheiro
Paulo Borges
Pedro Abrunhosa
Pedro Bacelar de Vasconcelos
Pedro Silva Rei
Pedro Vaz Patto
Peter Stilwell
Rita Veiga
Rodrigo Soares
Romualda Fernandes
Rosa Coutinho Cabral
Rui Bebiano
Rui Veloso
Rui Vieira Nery
Sara Balonas
Silas de Oliveira
Simonetta Luz Afonso
Teresa de Sousa
Teresa Toldy
Teresa Vasconcelos
Tiago Rodrigues
Yasmin Bah